O impacto silencioso da vaidade na saúde das organizações públicas e do Terceiro Setor
Há uma fragilidade recorrente em organizações de vida pública, órgãos governamentais e entidades do Terceiro Setor que raramente é tratada com a seriedade necessária: o ego. Não o ego saudável, ligado à autoestima e à identidade, mas o ego inflado, mal dosado, que se confunde com vaidade, senso de posse e necessidade constante de reconhecimento.
Muitas pessoas chegam a essas estruturas movidas por bons propósitos. Outras, nem tanto. Algumas por remuneração, outras por visibilidade, influência ou projeção política. Em certos casos, por uma mistura de tudo isso. O problema não está no ponto de partida, mas no caminho que se constrói com o tempo. Quando o cargo passa a ser confundido com propriedade e a instituição com extensão do próprio nome, o risco à saúde organizacional se instala.
É comum observar disputas internas por autoria de conquistas que, na essência, nunca foram individuais. Obras, projetos e avanços realizados com recursos públicos ou coletivos passam a ser narrados no singular: “eu fiz”, “eu trouxe”, “eu conquistei” ou “eu criei”. Essa linguagem não é detalhe semântico. Ela revela uma distorção profunda. Nada disso foi feito sozinho. Houve equipe, servidores, técnicos, parceiros, contribuintes e uma longa retaguarda invisível que sustenta qualquer realização pública, com dinheiro que não é do detentor do ego inflado.
Quando o ego entra em cena, surgem as pequenas guerras. Picuinhas. Milindres. Atritos por reconhecimento, por espaço, por foto, por narrativa. Pessoas deixam de se falar. Organizações que deveriam cooperar passam a competir. Projetos semelhantes se duplicam no mesmo território, não por estratégia, mas por vaidade. O resultado é ineficiência, desperdício de energia e atraso coletivo.
O senso de pertencimento extremo talvez seja uma das faces mais nocivas desse processo. Não se trata de comprometimento, mas de apego. A pessoa não serve à Instituição, ela se sente dona dela. E quando esse “dono” percebe que o palco pode diminuir ou que a sucessão se aproxima, reage mal. Fecha portas, desarticula caminhos, torce pelo tropeço de quem vem depois. Em vez de preparar sucessores, cria dependência. Em vez de deixar legado, deixa vácuo.
A grande prova da maturidade de uma liderança está justamente na sucessão. Quem é grande forma gente melhor do que si. Quem pensa pequeno tenta se eternizar. A ideia de que “sem mim isso não funciona” é uma autoilusão confortável, mas falsa. O mundo segue. As instituições seguem. E o tempo, implacável, dissolve nomes deixando ou não obras.
Convivi por mais de duas décadas com um exemplo raro de compreensão madura sobre isso: Cláudio Petrycoski, empresário que ajudou sua comunidade muito mais do que jamais fez questão de divulgar. Em diversos momentos, ao ver sua dedicação quase silenciosa, questionei: “Mas tanto dinheiro para isso, Cláudio?”. A resposta era simples e profunda: “Quando ajudo, sou também ajudado”. Não havia ali discurso, marketing ou necessidade de palco. Havia entendimento de vida. Muitas organizações receberam sem uma linha de comunicação externa e ele nem mesmo tributariamente se beneficiava com o que fazia.
Cláudio foi reconhecido, merecidamente. Mas se não fosse, isso não diminuiria sua obra e sua satisfação em servir. Porque o valor do que fez não dependia de aplauso. Dependia de impacto ou pelo menos a tentativa de evoluir. Ele deixou caminhos melhores do que encontrou. E isso basta.
É preciso reconhecer que mesmo pessoas movidas por ego ou necessidade de marketing acabam, sim, ajudando a sociedade. Seria ingênuo negar isso. A questão central está na dosimetria. O ego pode impulsionar ou destruir. Pode acelerar ou travar. Pode servir como motor temporário ou como veneno permanente. Quando não é controlado, ele tole lideranças, fragmenta esforços e impede a renovação saudável das organizações.
No fim, tudo se resume a uma pergunta simples, que poucos têm coragem de se fazer: estou aqui para transformar ou para aparecer? Para servir ou para ser servido? Para construir algo que sobreviva a mim ou para sustentar um palco enquanto ele existe?
Este mundo é passageiro. Em poucos anos, quase ninguém lembrará dos cargos, dos títulos ou das disputas internas. O que fica é a obra. O impacto real na vida das pessoas. Geralmente construído por gente que trabalhou mais do que falou, somou mais do que disputou e entendeu que fazer o bem coletivo não é diferencial. É obrigação.
Pensar maior não é querer ser mais do que alguém. É escolher ser um ser humano mais evoluído como ser social. E isso, definitivamente, não cabe dentro de um ego inflado. Por Marcelo Dalle Teze consultor empresarial



