Na abertura da Expo+Indústria 2026, promovida pelo Sistema Fiep, economista destacou competitividade, tecnologia e capacidade de adaptação. Cenário combina oportunidades para o Brasil com desafios ligados à produtividade, custos, juros e instabilidade geopolítica.
A indústria brasileira entra em um período em que crescer dependerá cada vez menos de simplesmente ampliar estrutura e contratar pessoas e cada vez mais da capacidade de produzir melhor, incorporar tecnologia e elevar produtividade. Essa foi uma das linhas centrais da análise apresentada pelo economista Ricardo Amorim na abertura da Expo+Indústria 2026, realizada de 25 a 27 de agosto, no Expotrade Convention Center, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
Amorim abriu a programação no dia 25 com a palestra “Como ganhar competitividade em um cenário global mais desafiador”, direcionada a empresários, gestores e lideranças industriais. A proposta foi justamente relacionar os movimentos da economia às decisões empresariais envolvendo investimentos, expansão, automação e competitividade.
O tema esteve em sintonia com a própria Expo+Indústria. Organizada pelo Sistema Fiep, a feira colocou produtividade no centro das discussões, reunindo soluções de automação, inteligência artificial, IoT, manufatura avançada, digitalização, eficiência energética, gestão e melhoria de processos.
O grande desafio será produzir mais com os recursos disponíveis
Uma das preocupações de Amorim é o crescimento dos custos empresariais sem uma expansão equivalente da produtividade. O economista tem chamado atenção especialmente para os efeitos de uma eventual redução da jornada de trabalho sem redução proporcional dos salários.
A lógica econômica apresentada é direta. Menos horas trabalhadas com o mesmo salário significam aumento do custo da hora de trabalho. Para que a empresa mantenha sua produção sem pressionar preços e margens, a produtividade precisa aumentar.
Em análise recente, Amorim argumentou que esse custo adicional tende a aparecer de alguma maneira na economia, seja por preços maiores, redução das margens ou menor geração de empregos. Ao abordar o assunto no ENIC 2026, reforçou que uma redução de jornada exige menor produção ou aumento da produtividade e questionou a capacidade de se produzir esse salto de eficiência imediatamente.
Esse raciocínio leva a uma equação importante para os próximos anos:salários maiores + escassez de mão de obra, mais possível redução da jornada, mais aumento de custos = necessidade muito maior de produtividade.
Para o empresário, portanto, a discussão deixa de ser exclusivamente trabalhista. Passa a ser estratégica.A tendência é acelerar investimentos em automação, inteligência artificial, revisão de processos, gestão, qualificação profissional e indicadores de desempenho.
Não por acaso, essas tecnologias estiveram entre os principais focos da Expo+Indústria. A própria Fiep apresentou o evento como um ambiente para aproximar empresas das soluções capazes de aumentar eficiência, produtividade e competitividade.
Tecnologia deixa de ser opção e passa a ser produtividade
Amorim também vem destacando a velocidade da transformação tecnológica. Em evento da indústria da construção neste ano, afirmou que inteligência artificial, automação e robotização terão impacto profundo sobre os setores produtivos e classificou a atual transformação tecnológica como uma revolução sem precedentes.
Para a indústria, isso significa que inteligência artificial não deve ser entendida apenas como uma ferramenta administrativa ou de comunicação.
Ela começa a integrar uma transformação maior que envolve planejamento, engenharia, manutenção, controle de qualidade, logística, vendas, gestão de estoques, análise de dados e tomada de decisão.
Em outras palavras, a competitividade dos próximos anos deverá estar menos ligada ao tamanho da empresa e mais à capacidade de fazer mais e melhor com os recursos disponíveis.
2027 pode marcar aceleração da economia
A leitura do cenário econômico também permite enxergar 2027 como um ano potencialmente importante para a atividade empresarial brasileira.
Amorim já vinha demonstrando otimismo com o início do processo de redução dos juros. Em maio, durante o ENIC, sua orientação aos empresários foi aproveitar a mudança do ciclo, diante da perspectiva de juros menores e dos reflexos positivos que isso pode provocar sobre investimentos.
A sequência econômica possível pode ser compreendida desta forma:
2025/2026: juros elevados e desaceleração econômica
2026: início de redução dos juros e eleições
2027: reação do crédito, dos investimentos e do consumo
2028: maturação de parte dos investimentos realizados anteriormente.
Há, entretanto, uma variável decisiva: a situação fiscal brasileira.
A avaliação de Amorim é que o comportamento de juros, câmbio e investimentos após as eleições dependerá significativamente da confiança na condução das contas públicas. Ele já descreveu 2026 como um cenário no qual uma orientação favorável ao ajuste fiscal poderia permitir novas quedas de dólar e juros, enquanto uma deterioração das contas poderia provocar movimento contrário.
Portanto, caso o governo que assumir em 2027 consiga transmitir confiança em relação à dívida pública, déficit e trajetória das despesas, o país poderá reunir três forças importantes:
juros menores mais entrada de capital estrangeiro e expansão do crédito.Essa combinação poderia acelerar investimentos empresariais e consumo.No sentido contrário, deterioração fiscal poderia novamente pressionar juros e câmbio, funcionando como freio da atividade econômica.
Dólar mais fraco também entra no cenário
Outro elemento importante nas análises recentes de Amorim é o enfraquecimento internacional do dólar.Quando a moeda americana caiu abaixo de R$ 5 em abril, o economista avaliou que, mantidas condições internacionais favoráveis, o dólar poderia caminhar para aproximadamente R$ 4,50.
Entre os fatores mencionados estavam menor aversão internacional ao risco, juros brasileiros elevados atraindo capital, ativos brasileiros relativamente baratos, commodities e redirecionamento de recursos para mercados emergentes.
Em outra análise, Amorim afirmou que não se surpreenderia com uma cotação próxima de R$ 4,80 nos trimestres seguintes, relacionando a valorização do real à entrada de dólares, redução dos preços dos importados, menor inflação e possibilidade de redução dos juros.
Não significa uma previsão fechada para dezembro de 2027. É uma tendência condicionada ao cenário internacional e, principalmente, ao comportamento fiscal brasileiro.
Para a indústria, um real mais valorizado produz efeitos diferentes. Pode reduzir custos de máquinas, equipamentos, componentes e insumos importados, mas também modifica a competitividade das exportações.
Um mundo mais perigoso
Se a perspectiva econômica brasileira apresenta oportunidades, o cenário internacional exige cautela. Amorim vem alertando para uma transformação estrutural da geopolítica, envolvendo conflitos e tensões simultâneas entre Rússia e Ucrânia, Oriente Médio, China e Taiwan e outras regiões.
Em análise recente, chegou a afirmar que o tabuleiro geopolítico está em uma posição mais arriscada, mencionando uma possível pressão chinesa sobre Taiwan e riscos envolvendo Rússia e países bálticos integrantes da OTAN.O problema para as empresas é que guerras deixaram de representar apenas acontecimentos políticos distantes.
Elas chegam rapidamente aos custos.
A sequência é conhecida: conflito, petróleo mais caro, fretes maiores , aumento dos custos, inflação, juros elevados, crédito menor e redução do crescimento.
O petróleo ocupa posição especialmente sensível nessa equação. Tensões no Oriente Médio e problemas envolvendo o Estreito de Ormuz podem interferir diretamente no abastecimento energético mundial e nos custos de transporte.
Além da energia, conflitos internacionais podem atingir fertilizantes, alimentos, commodities e diferentes cadeias de suprimentos.
Taiwan merece atenção especial da indústria
Para o setor industrial, talvez nenhum risco geopolítico seja tão estratégico quanto Taiwan. Amorim já chamou atenção para a possibilidade de a China ampliar sua pressão sobre a ilha e para as consequências que um movimento dessa dimensão teria sobre o equilíbrio internacional.
Do ponto de vista empresarial, o impacto potencial é enorme porque Taiwan ocupa posição fundamental na cadeia mundial de semicondutores.Uma crise grave na região poderia repercutir sobre eletrônicos, máquinas, equipamentos industriais, veículos, sistemas de automação e inúmeras cadeias produtivas asiáticas.
Para empresários brasileiros, portanto, gestão de riscos e diversificação de fornecedores começam a fazer parte da estratégia industrial tanto quanto custos, produtividade e vendas.
Instabilidade mundial pode favorecer relativamente o Brasil
Há, porém, um aparente paradoxo na visão de Amorim. Quanto maior a instabilidade internacional, maior pode ser a atratividade relativa do Brasil para determinados investimentos.
O economista vem defendendo que o país apresenta risco geopolítico relativamente baixo quando comparado a outros grandes emergentes. Rússia está diretamente envolvida em guerra; China convive com tensões comerciais e geopolíticas; e outros mercados emergentes enfrentam riscos regionais.
O Brasil, por outro lado, encontra-se geograficamente distante dos principais focos militares e mantém relações econômicas com diferentes blocos.
Em análise anterior, Amorim chegou a definir o país como uma das poucas grandes economias emergentes com risco geopolítico próximo de zero. Mais recentemente, voltou a relacionar a entrada de investimentos estrangeiros à reorganização internacional de capitais diante dos conflitos.
Isso abre oportunidades para setores nos quais o Brasil possui vantagens importantes, como alimentos, petróleo, energia, minerais, biocombustíveis e indústria ligada às cadeias de recursos naturais.
Amorim também costuma lembrar que crises anteriores estimularam transformações estruturais brasileiras. Em palestra realizada neste ano, relacionou a crise do petróleo dos anos 1970 ao desenvolvimento de iniciativas que posteriormente ajudariam a transformar o agronegócio brasileiro, como a Embrapa.
O recado para o empresário é produtividade
No conjunto, a mensagem deixada pelo cenário discutido por Ricardo Amorim e pela própria Expo+Indústria é menos uma previsão sobre o futuro e mais uma orientação sobre como se preparar para ele.
O Brasil poderá encontrar uma janela relevante de oportunidades a partir da combinação de juros menores, crédito, investimentos estrangeiros e vantagens geopolíticas. Mas nada disso elimina os desafios internos das empresas.
A disputa será pela produtividade.
Empresas que entrarem nesse novo ciclo carregando desperdícios, processos lentos, excesso de atividades manuais, baixa qualificação, pouca informação gerencial e decisões baseadas apenas em experiência terão dificuldade para transformar crescimento econômico em rentabilidade.
Por outro lado, aquelas que investirem em tecnologia, pessoas, processos, indicadores, automação e inteligência artificial estarão mais preparadas para aproveitar uma eventual aceleração da economia.
O mundo pode continuar instável. O Brasil pode ganhar espaço. Mas, dentro das empresas, a conta continuará sendo bastante objetiva: competitividade exige produtividade.
É justamente essa conexão entre cenário econômico e ação empresarial que sintetiza o espírito da Expo+Indústria 2026. A feira nasceu para aproximar quem precisa elevar produtividade de quem possui tecnologia e soluções para fazê-lo.
Para o consultor em estratégia, Marcelo Silveira Dalle Teze a palestra de Amorin retrata a transformação vivida mundialmente e nacionalmente. Segundo ele quem não se reinventar comercialmente e nas estratégias de custos internos e produção poderá sucumbir num mundo com intensa inclusão tecnológica que exige, cada vez mais, profissionalismo e atitude transformação de formas de condução dos negócios.




